terça-feira, 15 de abril de 2008

Ancila

Acabei de fazer, exclusivamente para o Blog!



Ancila


Esta é a história de Ancila. Ancila vivia só. Filhos não tinha, irmãos nem sobrinhos. Ninguém a visitava; poucos notavam sua existência. A casa em que morava assemelhava-se a um pequeno castelo; contrução histórica tombada que, além de Ancila, só era freqüentada por Dona Agnes, a faxineira que às sextas-feiras limpava o casarão. De seu marido, morto há muitos anos, às vezes Ancila esquecia as feições, e recorria a um porta-retratos que habitava o fundo da cristaleira. Não fora mãe. Engravidou uma única vez. Uma tarde, porém, viu perplexa seu feto afundar no vaso sanitário.
Ancila não temia a solidão. Um homem não lhe fazia falta. É certo que ainda tinha sonhos eróticos, e ao acordar ria de si mesma. Por vezes até admirava o fato de ainda estar viva: "Deus, por qual razão o Senhor não me leva daqui, por quanto tempo ainda habitarei esta casa, subirei as mesmas escadas, jantarei nesta mesma mesa, por quanto tempo?".
Dona Agnes, a faxineira, era o único acontecimento que alterava a rotina da casa, ou mesmo a rotina da falta de acontecimentos. Todas as sextas às oito: era mais precisa que um relógio atômico. No início, aquela casa, aquele silêncio, aquele ambiente mesmo tétrico a incomodava. Chegou por vezes a sentir certo calafrio ao escovar o corrimão da escada, de prata envelhecida pelo tempo, esculturada de maneira clássica. Depois acostumou-se, e nem piedade sentia mais por sua patroa. Tinha o salário pago religiosamente. Quem retirava a aposentadoria de Ancila e fazia as compras da semana, além de pagar as contas, era o Rubião, um jovem funcionário da mercearia local que se prestava a isso por uma pequena quantia. Mas nem Rubião era visto por Ancila. Agnes é quem intermediava.
Um dia Ancila foi para cama mais cedo. Leu as últimas páginas de "Os Irmãos Karamázov" e deitou-se, exausta. Estava, contudo, algo perturbada. Pois foi justamente nesta noite que Ancila morreu. É preciso explicar que Ancila havia, no último mês de sua vida, experimentado sensações que não mais almejava vivenciar. Voltemos no tempo.
Uma noite em que, deitada na cama, Ancila divertia a mente com os reflexos dos faróis dos carros que luziam no teto do quarto, sentiu algo roçando suas pernas. O que é isso? Descobriu-se bruscamente. Nada... Devia ser uma impressão. Dali a alguns instantes, outra vez. Era como se dedos deslizassem suavemente sobre um dos joelhos. Achou estranho e adormeceu levemente, quase sem perceber. Foi quando lhe percolheu a alma o maior sonho de sua vida, algo extremamente insólito, diferentemente novo. Ancila, em seu devaneio noturno, era acariciada, percorrida, umidificada, devassada por uma... uma... é preciso que se diga: uma barata! Por uma suave, uma delicada, uma simples barata... que despertara em Ancila sentidos altamente sensuais e totalmente desconhecidos. Vivera uma longa noite de amor, inebriante, extasiante, singular, impublicável...
A princípio quase despertou. Mas... espere! Que sensação estranha, que sensação nova... que sensação agradável! Sentiu-se, poderíamos dizer, algo mulher novamente, e foi, sim, luxuriosa a noite em que Ancila, desbravada por inteiro, deixou-se dominar pelo bel-prazer de um inseto!
No dia seguinte sentiu dores de cabeça. Achou-se ridícula. E enquanto Agnes - era sexta-feira - lustrava o corrimão da escada, lia o jornal e fugia do olhar da faxineira: "Que bela dama, deixar-se seduzir por uma, Meu Deus, uma barata!...".
À noite, no quarto, Ancila havia já esquecido o tórrido amor que vivenciara naquele mesmo cenário quando, novamente ao buscar o sono, ouviu o barulhinho de algo próximo à cabeceira de sua cama. Não podia acreditar. Era ela, de novo! E olhava para Ancila com certa... ternura. Ancila corou. Ficaram assim, alguns instantes encarando-se. Foi então que o inseto tomou o primeiro impulso e penetrou a cama através dos planaltos formados pelos lençóis de seda. Ancila deixou-se levar... Entregou-se por inteiro... Mais uma vez... Um pouco por vontade, um pouco por apatia.
E assim sucederam-se trinta dias, um igual ao outro, ou melhor, trinta dias de desejo crescente... até que, como dissemos, Ancila morreu.
Foi encontrada uma sexta-feira, por Agnes, caída ao pé da escada. Compareceram ao velório somente a criada e Rubião. Aliás, poucos souberam da morte da mulher que habitava aquele casarão. Enterrada às cinco horas da tarde, Ancila permaneceu imóvel até às oito, como era de esperar, quando foi despertada por pequenas cócegas no nariz. De início não teve reação. Era presa do mais profundo dos sonos. Mas o leve roçar persistia. Foram necessários alguns minutos para que, mansamente, abrisse os olhos. Ancila sorriu. Era ela! Era ela... "Eu sabia que viria", foi só o que disse. Lá fora a lua encobria-se e chovia timidamente...


Fefê Bidu

Um comentário:

drips e fefê disse...

Eca !!!! Coitada da Ancila, também com um nome desse só mesmo uma barata pra, você sabe o quê ...
Esse nome lembra lata de leite pra crianças ! Adorei essa história primo inteligente.

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