sexta-feira, 2 de maio de 2008

Jurema

- Barata, barata, barata, barata, barata!
- O que é isso, mulher?
- Eu não agüento mais tanta barata!
- Mas onde tem barata??
- Correu pra janela e foi embora...
- Eu acho que você está vendo coisas...
- Eu sei o que vejo... e sei o que verei depois...
- Sabe o que vê, o que verá depois... Que história é essa?
- Ele... Ele sempre vem... Depois das baratas...
- Mas quem, santa criatura, vem depois das baratas???
- O Nicanor! O Nicanor!
- Ah, não, vai começar de novo com essa história de Nicanor! Nicanor está morto. Morto e enterrado!
- Não pra mim!
- Eu acho que você virou é uma histérica!
- Você não acredita, não é?
- Eu acredito que você deve procurar ajuda urgente...
- Ajuda? A minha própria irmã me chamando de louca! E o pior é que você acredita! Você acredita! Você faz isso pra me irritar!
- Como você fala bobagem...
- Você está louca para que me internem... Que me levem pra bem longe da SUA casa, não é?... Pobre destino de uma mulher viúva, idosa, sem casa pra morar...
- Que idosa o quê? Por acaso agora você é idosa com 39 anos?
- Mas é assim que eu me sinto... Desde que o Nicanor morreu parece que... parece que a minha vida passou... que eu vivo pra esperar a morte.
- Não seja dramática.
- Não é drama, não! É real o que eu sinto... E ele vem pra me perturbar... Ele me persegue!
- Eu acho que quem anda influenciando você é esse pai-de-santo com quem você anda saindo...
- Que pai-de-santo o quê! O Valdecir é espiritualista!
- Ista, ista... Sei. O que eu sei é que desde que você começou a se relacionar com esse... ista, você não tem sossego.
- Eu não me "relaciono" com o Valdecir, ele é só um amigo.. Uma alma gentil... Que me acolheu num momento tão difícil...
- Sei, sei... De almas gentis o inferno está cheio. Humpf, se eu não conhecesse...
- Judith, não é o Valdecir o meu problema. É o Nicanor!
- Mas o que esse homem morto, que já apodreceu, já foi corroído pelas baratas, pode fazer pra você, Jurema! Depois diz que não tá doida...
- Ele tem ciúmes...
- Ciúmes???
- O Nicanor morre de ciúmes do Valdecir!
- Ah, não, essa é boa! O Nicanor com ciúmes do Valdecir...
- Eu não agüento mais, eu não agüento!
Jurema sai perturbada em direção à rua. Quase é atropelada por uma bicicleta. Segue sem destino. Anda dois, três quarteirões. Senta-se num banco de praça. Levanta-se, continua a andar. Ao passar por um poste, uma voz:
- Jurema... Jurema!
- Quem é? O quê você quer! Deixe-me em paz!
- Jurema, você é minha mulher...
- Eu ERA a sua mulher, Nicanor, eu ERA!!! Você morreu! Morreu e me deixou!!!
- O Valdecir... O Valdecir...
- O que tem o Valdecir?
- Não se esqueça... Eu estou vendo tudo...
- Vendo o quê, não aconteceu nada, Nicanor!
Uma senhora passa e oferece ajuda:
- Minha filha, você está precisando de alguma coisa?
- É esse homem, dona, ele me persegue, eu não posso mais suportar!
- Qual homem, moça?
- Meu marido... Meu marido morto! Ele fala comigo, não me deixa em paz!... Tudo está confuso, eu não sei mais distinguir o que é real... As baratas... As baratas me avisam! As baratas!
- Minha filha, eu vou levar você pra casa, você está pálida...
- Não, minha casa não, eu não quero mais ver baratas!
- Na sua casa tem muita barata?
- Todo dia, toda hora, dona. E quando eu durmo, à noite... elas vêm... E fazem cócegas pelo meu rosto!
- Você não quer que eu chame um médico?
- Não! Não, médico não, médico não!
- Mas eu tenho que chamar... Eu vou chamar!
- Médico não, médico não! Não!!!
Neste momento Jurema sai em disparada, atravessa novamente a rua sem olhar e é atropelada por um táxi em alta velocidade. De sua cabeça no chão, já sem vida, escorre grande quantidade de sangue. Uma barata passa por sua testa, cotidianamente...

Um comentário:

drips e fefê disse...

kkkk coitada da Jurema que morreu atropelada por causa do Nicanor que não gostava do Valdecir e nem de baratas kkkkkkkkkk Quanta imaginação a sua kkkkkkkkkkk

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