sexta-feira, 16 de maio de 2008

Madre Teodora

Isolda prepara-se para visitar sua tia Madre Teodora no convento. Mas esta história não começa aqui. Faz-se necessário voltar no tempo. Madre Teodora já nasceu freira. Filha de um proprietário de terras da pequena cidade de Cruz-das-Dores, Teodorinha - ou Teodoca, como carinhosamente era chamada por suas irmãs - percorreu um longo e espinhoso caminho até alcançar a plena realização de seu sonho: entrar para o convento. Filha de pais ateus, Teodora pressentiu muito cedo que Dona Enervídes e Seu Arquimédes constituiriam o seu principal obstáculo.
Teodora era muito bem quista na cidade. Todos admiravam sua simpatia e inteligência. Havia em Teodorinha uma clara superioridade intelectual sobre as irmãs; e também sobre as suas colegas de colégio, sobre seus pais e sobre a cidade inteira de Cruz-das-Dores.
Mais do que isso: existia em Teodora uma sensibilidade incomum, uma espécie de paranormalidade.
A primeira manifestação inusitada dos poderes de Teodorinha deu-se aos sete anos.
Sucedeu que, passeando com sua mãe por em torno da Praça principal de Cruz-das-Dores, a garota foi subitamente atacada por uma profunda tristeza da qual não sabia identificar a origem.
- Mamãe - disse Teodora - como é triste ver a praça assim, com as flores todas murchas, as plantas secas e as árvores tão feias... Isto me entristece...
- Oh, queridinha, não fique assim... É que estamos no inverno, e no inverno é normal que a natureza se recolha para depois reaparecer ainda mais bonita!
- Então, mamãe - retrucou a menina - quando eu for dormir hoje à noite, pedirei ao Papai do Céu que traga logo a primavera para a nossa cidade!
- Ah, minha filhinha! - foi só o que pôde responder Dona Enervídes à filha, enternecida pela ingenuidade e candura da criança, enquanto enxugava uma lágrima.
No dia seguinte, alvoroço geral na cidade, todos em torno da praça, boquiabertos, inebriados, embasbacados: o jardim estava explêndido; tudo havia se tranformado, como em toque de mágica. Havia profusão de margaridas, azaléias, lírios, rosas, orquídeas, crisântemos, todos os tipos de flores, espalhadas pelos canteiros até então vazios; as árvores, antes magras e secas, opacas, agoram eram robustas, imponentes, coloridas, e até mesmo numerosos beija-flores sobrevoavam aquele paraíso em rítmica dança. Dona Enervídes não acreditava no que seus olhos enxergavam... Era milagre! Milagre de Teodorinha!
Desde então Teodora deu pra fazer previsões. Adivinhava tudo, o sexo das crianças que estavam por nascer, a morte dos habitantes de Cruz-das-Dores e acontecimentos importantes da cidade.
Foi, para tomarmos de exemplo, o que aconteceu quando do desabamento da Igreja da Vila Velha: Teodorinha correu a avisar as crianças que ensaiavam no coral da Igreja e evitou um acidente de enormes proporções.
Teodora , a contragosto dos pais, era uma espécie de santa da cidade. E quando demonstrou interesse em estudar no convento e um dia virar freira, estes mostraram-se contrários, mas logo tiveram que abrir mão de suas convicções; foi precisamente no dia em que Teodorinha morreu. Expliquemos.
Um dia Teodorinha morreu. Foi num final de tarde que lhe atacou a garganta um pequeno pigarro, coisa pouca.
- Está com tosse, filhinha?
- Não, hum, hum, mamãe, é só uma coceirinha na garganta, não se preocupe.
- Você tem saúde de ferro, Teodora, nunca pegou sequer uma gripe!
No dia seguinte, a coceirinha passou a tosses constantes que se tranformaram em pneumonia, com febre alta, e Teodorinha foi posta de cama até não resistir e morrer.
- Ah, que desgraça, Arquimédes, deviamos ter permitido que Teodorinha entrasse para a irmandade! Que desgraça!
- Ai, Enervídes, como isto queima o meu coração, como isto queima o meu coração!
A cidade inteira compareceu ao velório de Teodora. Às quatro e meia da tarde o Padre Vitório pronunciava sua oração quando um fato deveras estranho conteceu. Alguém disse:
- Uma barata!
Dona Framília, que tinha horror ao inseto, soltou um grito estridente e desatou a correr entre os presentes, empurrando todos:
- Uma não, são duas baratas!
O Osvaldo da farmácia também não podia ver uma barata e teve quase uma síncope:
- Olha, ali tem outra... E ali! Meu Deus, não param de surgir baratas!
Com efeito a sala do velório foi tomada por numerosas baratas que advinham incessavelmente de baixo do caixão de Teodora. Alguns segundos depois e já eram em torno de cinqüenta. Neste instante, para espanto absoluto de todos, Teodorinha levantou-se bruscamente, olhos esbugalhados. Confusão geral. Corria-se das baratas; agora corre-se de Teodorinha. Diversas pessoas desmaiam. Demora-se a entender o que se vê. Teodora recussita!
Bem, após este prólogo, voltemos à Isolda, que se arruma em frente ao espelho. Passam-se setenta anos. Valquíria, irmã de Teodora, conversa com sua filha sentada à mesa do café.
- Ah, mamãe, eu não quero visitar a titia Teodora...
- Mas por quê, Isolda, ela é tão boa para você!
- Eu sei, mamãe, mas é que... Às vezes ela me enfada. Sabe... Eu não gosto dessa sua mania de ficar prevendo o futuro, dizendo o que vai acontecer em nossas vidas...
- Oh, querida, não se preocupe com isso. É que este dom a acompanha desde pequena, você tem que entender. E, além do mais, nem sempre ela acerta...
- E eu não sei? Comigo mesmo já errou diversas vezes...
- Pois então! Só não quero que contrarie Teodora. Minha irmã já é uma mulher idosa. Vive para rezar, coitada, confinada naquele convento dia e noite!
- Está bem, mamãe, levarei as frutas.
Ainda um pouco contrariada, Isolda, linda moça de vinte anos, namorada do Augusto, rapaz da cidade que está prestes a formar-se médico, parte rumo ao convento.
- Oh, Isoldinha! Deus, como eu fico feliz em vê-la, você não pode imaginar, filhinha!
- Sei, titia... Eu também.
- Sente-se Isoldinha - Teodora sentia por sua sobrinha Isolda não diremos inveja, mas algo entre admiração e orgulho, aquele frescor da idade, a fisionomia esbelta, os longos cabelos cacheados, a promissora carreira no magistério, a vida que estava por se descortinar...
- Trouxe frutas para a senhora. Tem tudo de que a senhora gosta. Maçãs, uvas, bananas, morangos...
- Como você é boa para mim Isoldinha... Mas, diga-me, como anda o namoro com o Augusto?
- Ah, titia! - neste instante um raio de luz atravessa os olhos de Isolda, e sua fisionomia muda ao falar do namorado - o Augusto e eu, creio que juntaremos nossos trapinhos em breve...
- Seria lindo...
- Não posso esperar mais, titia!
- Seria lindo...
- Estou até imaginando como será meu vestido!
- Seria lindo... Mas não vai ser.
- O... O quê, titia?
- Este casamento não sai.
- Como não sai?
- É o que digo, não se casará com Augusto.
- Mas titia, Augusto e eu, nós nos amamos, somos verdadeiramente apaixonados um pelo outro...
- Augusto tem outra... Eu sinto.
- O quê??? Augusto.. Outra?
- Sim.
- Mas... Pois olhe, titia, eu não acredito no que a senhora está dizendo - Isolda cruza os braços e vira-se de costas.
- Como não acredita?
- Não acredito. Para mim é cristalino como a água... Até o final do ano me caso com Augusto. E ele é absolutamente fiel a mim...
- Não posso entender... Nunca desconfiou de mim, querida... Estou desolada...
- Não se trata de desconfiança, titia... Apenas acho que a senhora se engana.
- Mas... Trago em meu coração este dom, filha ... Nunca alguém recusou a oferta de minhas previsões, Isolda!
- Pois quando se trata de meu futuro e de Augusto, posso garantir: casamo-nos tão logo ele se forme!
- Estou muito triste, querida. Muito triste...
- Olhe, titia, se a senhora agora me der licença, irei estudar para minhas provas do magistério. Não me leve a mal. Mamãe envia beijos - Isoldinha beija a testa de teodora, que está sentada em sua cadeira de balanço, e sai.
- Isoldinha... Volte aqui... - murmurou Teodora.
Nunca ninguém ousara contrariar Teodora. Estava perplexa. Sentia apertar-lhe o coração. De súbito um mal-estar: o ar lhe faltava; quis levantar e não pôde. Sufocava-lhe a garganta, não podia chamar por auxílio. Doía-lhe a cabeça. Nunca ninguém ousara contrariar Teodora. Sozinha em seu quarto, pôs-se a debater, mas não podia mais respirar. Segundos de terror se passaram. Foi encontrada morta, minutos depois, quando chamavam-lhe para as orações.
Nunca ninguém ousara contrariar Teodora. Nunca...

Um comentário:

drips e fefê disse...

Vou fazer igual a sua mãe: toda vez que ouvir esse "nome que começa com T" vou dar 3 batidinhas na madeira kkkkkkkkkkkkkkk
Imagina só !!!!

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