terça-feira, 29 de julho de 2008

Nathalie Ostorero, minha amiga

E lá veio ele. Chegou claro e bonito, um pouco frio mas muito azul. Transcorreu sem nenhuma alteração a não ser a lembrança do passado no fim da tarde.
Em 1980 nos mudamos para Laranjeiras. Lá naquele prédio que parece um pombal chamado "Três Mosqueteiros" vivemos, eu e meus irmãos, uma adolescência muito bacana. Era um duplex, aprontamos horrores e nos divertimos muito.
Conheci aos treze anos Nathalie Ostorero, uma vizinha de andar. O prédio era imenso e no nosso andar tinham mais de vinte apartamentos. Morávamos no 314 e Nathalie se mudou pra o mesmo corredor, do outro lado e algumas portas depois da nossa. Talvez o 319, não me lembro.
Nathalie morava com sua irmã que tomava conta dela. Elas eram francesas. A irmã era muito francesa, já Nathalie era muito brasileira. Nos tornamos amigas. Como erámos vizinhas era um entra e sai da casa de uma e de outra, e uma almoçava, a outra jantava e ouvia som e quando eu não estava em casa ela ficava lá conversando com minha mãe e irmãos que gostavam muito dela. Víviamos juntas muitas horas do dia.
Ela me ensinou muitas palavras em francês e eu não ensinei nada de português pra ela, porque ela era muito esperta e já sabia. A gente usava xampu de maçã verde da Loreal, empresa que a irmã dela trabalhava, e apostávamos qual era a cabeça mais cheirosa.
Íamos à festas em vários lugares e chegamos a ser identificadas como a "Loirinha e a Moreninha". Os meninos ficavam doidos com Nathalie e ela não ficava doida com eles. Como toda adolescente normal se apaixonava. Não durava nem um mês ela dispensava. Era uma menina muito franca e honesta. Uma dessas paixões foi um carinha que atendia pelo apelido de "Xampu" que morava numa rua sem saída nas Laranjeiras. Era engraçadíssimo nós duas subindo aquela ladeira íngrime com o propósito de ver se o carinha estava lá de bobeira. O tal carinha era um "playbozão" sem cérebro, um idiota que só fumava maconha, andava de moto e azarava todas as meninas. Nathalie se tocou e pulou fora. Depois foi um outro carinha da mesma rua que achava que ela era "areia demais pro caminhão dele", que era muito nova pra ele e não rolou. Do Xampu eu não sei, nunca mais o vi. Do outro carinha digo que ele se casou com um "bagulhão", tem dois filhos e parece apaixonadíssimo até hoje pela sua mulher. Essas histórias vieram à tona porque fui a um restaurante que de vez em quando íamos juntas. Foi uma sensação estranhíssima. Íamos a várias festinhas, viajávamos juntas... Nathalie me proporcionou muitas coisas boas que a minha família jamais poderia me proporcionar.
Dormi pensando na Nathalie, na nossa amizade, nos filhos dela, nos anos que passaram.
Acordei pensando no dia em que ela me telefonou perguntando se tinha chegado a caixa que ela tinha mandado. Nessa caixa tinha um "besourão enorme com chifre", tomei um susto e joguei a caixa longe. Ela era espirituosa e engraçada embrulhou o besourão e o colocou numa caixa de presente, dentro dessa mesma caixa tinham várias indicações pra que eu procurasse um pote de Creme Nívea e lá fui eu ... dentro do Creme Nívea ela me mandou de presente um cordão cheio de pepitas. É claro que tenho ele até hoje. O cordão ficou todo melecado do creme que gruda como uma cola. Lembro e rio. Lembro e os olhos marejam. O útimo presente que ela me mandou, um vidro do "Magie Noire" (a gente adorava esse perfume) o cara que ela pediu pra me entregar roubou. Ela ficou revoltada com o cara.
Tantos anos... nunca brigamos, não sei se pela distância, não sei ... acho que não, porque eu e a irmã dela conseguimos brigar mesmo distantes. Aliás, esse fato não abalou a nossa amizade de infância. Ela mesma me disse: "Banana, isso é problema teu com a Carole. Gosto de ti, da tua família e sei que você não fez o que a "fulana" (esqueci o nome da fulana) disse pra Carole que você fez. Se ela acredita também é problema dela." E assim, continuamos a nos falar, telefonar, mandar cartas. Tenho uma pilha de cartas da Nathalie, tenho até uma quimba de cigarro que nós fumamos. Ela chamava minha mãe de mãe. Quando meu irmão se matou, Nathalie mesmo distante há tempos me telefonou, nos mandou cartas, a gente sentiu a preocupação dela. E assim foi.
Passamos muitas coisas juntas. Uma grande amiga que revi em 1993 num jantar em Ipanema. Foi a última vez. Nathalie teve três filhos, um menino e duas meninas. Esse menino hoje é um rapaz de 16, 17 anos. A menina, segunda filha, é uma mocinha de seus 13, 14 anos e tem a menor que ainda é uma menina. Todos muitos bonitos. Ela era loira, esguia, muito bonita mesmo e seu marido um brasileiro típico nortista. Seus filhos são essa mistura de nacionalidades:" a morenice e a loirice."
Há dias tento acabar esse "destampamento de baú" e não consigo. Hoje faz dois anos que a minha mãe morreu. Há dois anos atrás com uma tristeza infinita mandei um e-mail pra Nathalie avisando que minha mãe tinha morrido. Nathalie não me respondeu.
A última notícia que ela me deu foi a que ela viria ao Brasil em abril comprar material para a obra da sua casa e estava pensando em vir ao Rio. Eu fiquei contente, não tinha dinheiro pra ir a Belém. Ela não veio.
Ela não virá nunca mais. Recebi em letras garrafais e em negrito a notícia do seu acidente em solo brasileiro. Seu marido, abalado, triste, inconformado me fez a gentileza de responder o e-mail alguns dias após a morte da minha mãe.

"Nathalie , achei a Tess no orkut. Ela é linda, parece com você. Impressionante o jeito dela nas fotos, se ela não fosse morena diria que era você. Não sei do Gregory e da Marion mas acredito que eles estejam bem. Se eu não estou enganada tinha uma foto deles no orkut da Tess. Não tenho mais notícia de nenhum deles, afinal era você o meu vínculo. A Tess fez uma declaração de amor pra você. Ela tem muitas saudades. Estou pensando em escrever pra ela. Quem sabe ela não tem curiosidade de saber como foi a nossa juventude ? Eu contarei pra ela como eu e você nos divertimos, choramos, brincamos. Terei que ter coragem porque pode ser que ela não queira e me dê um fora. Pode ser. Enfim, como você dizia: "Pára de ficar achando isso e aquilo e faz logo. Se der deu, se não der não deu, égua!!!"
Um beijo amiga loira. Muita luz pra você. Muita saudade.
Adriana

4 comentários:

drips e fefê disse...

Que difícil deve ter sido saber da morte da Nathalie no momento em que você a procurava para obter um conforto.

Isabel disse...

Nathalie tambien foi minha amiga de infancia. e atravez do teu depoimento descobri que ela faleceu...
era uma menina muito linda , muito meiga
estudei com ela no Franco brasileiro , e juntas com a Isabelle , eramos super unidas...
seu irmao Nicolas, era um menino super meigo tambem
meu filho se chama assim tambem!! nunca esqueci dela, mas os vai e vem da vida, fizeram que nos afastassemos
agora estou aqui na Belgica e tinha uma esperança em revê-la...poxa estou sem palavras.............

Anônimo disse...

Olá, estou a procura de uma Nathalie que este mesmo sobrenome e até um irmão chamado Nicola mas tinha outros dois irmãos, Carrole e Fabricio é que minha mãe os conheceu muito pequenos aqui no Brasil, ficou muito tempo com seus pais e me pediu para tentar saber alguma coisa sobre eles. Pesquisando achei seu blog e só queria tentar confirmar se são os mesmos. Eu era muito pequeno e ela já uma adolescente e moraram no Flamengo. Será que seria a mesma pessoa? Vc lembra se ela teria esses irmãos com esse nome? Ah, os pais eram Sr Gerard e Ninete, acredito. Muito obrigado, Jardel.

Anônimo disse...

Olá Adriana,

Bom, eu sou o Jardel, a pessoa que postou a msg anterior.
Na verdade acabei mostrando esta história que vc escreveu relatando sua adolescência com Nathalie, para minha mãe e ela realmente foi confirmando os fatos, tais como na época em que ela morou com a Carole em Laranjeiras no duplex, minha mãe chegou a dormir lá para cuidar da Nathalie quando a Carole viajava acho que a trabalho pela Loreal. Enfim, acredito realmente ser a mesma pessoa. Minha mãe chegou a ficar muito triste quando sobe do seu falecimento, relembrou momentos até quando ela aos 8 ou 10 anos adorava ajuda-la a cuidar de mim já que eu era bem pequeno. Eu me lembro bastante dela e a última vez que estive com ela faz muitos anos, elas estavam passando um tempo num apartamento na Lagoa, lembro que dormi lá ... é já tem muito tempo mesmo.
De qualquer forma muito obrigado pela atenção.
Vou tentar localizar a Carole.
Jardel.

Pesquisar este blog